Eloi de Souza Garcia

Eloi de Souza Garcia

Eloi de Souza Garcia

Caros Leitores, Esse blog foi criado para dar divulgação aos textos do Dr. Eloi Garcia, do Laboratório de Bioquímica e Fisiologia de Insetos, do Instituto Oswaldo Cruz. O Dr. Garcia é responsável por uma contribuição ímpar no campo da Fisiologia, Endocrinologia e Imunologia de Insetos e, além disso, por mais de 20 anos ele vem publicando artigos de divulgação científica nos principais jornais do Brasil. O objetivo desse site é recuperar inicialmente alguns desses textos de divulgação. Boa leitura!


Laboratório de Bioquímica e Fisiologia de Insetos - IOC/FIOCRUZ

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Uma paixão inesquecível pelos cromossomos

Não sei bem porque desde a época da Universidade tenho uma paixão especial para o cromossomo 5. A razão disto até hoje ainda não está clara. Talvez porque já sabia que ele teria genes muitos interessantes.

O genoma humano – seqüência completa dos genes humanos – está contido em 23 pares separados de cromossomos. Destes, 22 pares são enumerados pelo tamanho aproximado, ou seja, do maior (número 1) ao menor (número 22).

O par restante corresponde aos cromossomos sexuais: dois grandes cromossomos X na mulher, um extenso cromossomo X e um pequeno cromossomo Y no homem. Em tamanho o cromossomo X encontra-se entre o 7 e o 8, enquanto o Y é o menor de todos os cromossomos.

Existem cientistas que acreditam que, nos próximos 10 milhões de anos, a espécie humana poderá perder os 45 genes do cromossomo Y, incluindo o gene SRY responsável pela produção de hormônios.

Este cromossomo surgiu a 300 milhões de anos possuindo 1.438 genes. Assim, neste período já perdeu 1.393 genes.

Aparentemente um outro cromossomo terá a tarefa de desenvolver um gene para determinação do sexo. Os pesquisadores acreditam que se o cromossomo Y for extinto, isto poderia criar dois ou mais sistemas de determinação sexual resultando em duas espécies humanas diferentes.

O número de cromossomos em uma espécie animal não é importante. Várias espécies, incluindo os primatas têm mais cromossomos, e outras menos, que o ser humano. Mesmo as distribuições dos genes de função semelhante podem ser diferentes de acordo com a espécie considerada.

Não sei bem porque desde a época da Universidade tenho uma paixão especial para o cromossomo 5. A razão disto até hoje ainda não está clara. Talvez porque já sabia que ele teria genes muitos interessantes.

Após a publicação do seqüenciamento do genoma humano, os genes de 12 cromossomos foram identificados. Destes, o cromossomo 5 teve sua seqüência completada de maneira acurada e torna-se uma poderosa ferramenta para os pesquisadores tentarem compreender as doenças no ser humano.

O cromossomo 5, o maior dos cromossomos já seqüenciados, é composto de 180,9 milhões de bases (As, Ts, Gs, e Cs), 923 genes, incluindo 66 genes que estão envolvidos em doenças humanas.

Cerca de 14 doenças estão relacionadas com 5 genes contidos no cromossomo 5. Outros genes incluem os que codificam interleucinas, moléculas envolvidas na sinalização do sistema imune e implicadas com a asma.

Além destes genes, o cromossomo 5 possui vastos espaços de seqüência não codificante. Estudos comparativos mostraram que estas regiões são conservadas entre várias espécies de mamíferos e peixes e têm papel importante na regulação gênica.

Até pouco tempo estas regiões eram conhecidas com DNA-lixo. No entanto, hoje se sabe que estes longos espaços conservados no DNA indicam regiões importantes, em termos genéticos, que estão envolvidas na regulação de genes.

A seqüência do cromossomo 5 mostra também como os seres humanos, após divergirem dos chimpanzés, possuem 99% de similaridade nos cromossomos, e grande semelhança nos genes que causam doenças quando sofrem alguma mutação.

Por outro lado, aproximadamente 1/3 do cromossomo 5 humano é semelhante ao cromossomo que determina o sexo das aves. Este por sua vez, é muito parecido com os cromossomos X e Y do ser humano.

Apesar disto parece que estes seres, após 300 milhões de anos da separação de um ancestral comum, desenvolveram métodos fisiológicos bastante diferentes para animais machos e fêmeas. Ainda bem, não é?


(Publicado no Jornal da Ciência, em 10 de Dezembro de 2004)